Carbono Galeria

Edições contemporâneas

A palavra palavra

A palavra palavra

São Paulo , 09.11.2015 ~ 29.01.2016 
 

Toda palavra foge de um poço chamado solidão. E, ao livrar-se desse lá no fundo, vai se modificando na língua (músculo do outro). Força limites, repete-se sem parar, teimosa e inevitável, como se nunca tivesse acontecido antes. Nem toda palavra dita é útil. As mais absurdas, intrusivas e assustadoras são mais comuns do que se imagina. Forjadas frescamente por um delírio, fermentam em vão ideias evocadas, acontecimentos deambulantes, desassossegos.
 

E toda palavra nua é um encontro de nadas. De um deslize sem rastro, atônito, entre vozes que não se deixam escrever. Vem daí a tarefa de sua investigação: traçar, a todo custo, sua origem. Toda palavra é útil: convenção entre os ruídos, é lembrança de um acontecimento nítido ou tradução de uma imagem instantânea, com passado e futuro, explicando o mundo desconhecido, para saber e para fazer saber. Toda palavra é desmesura, como se, naquele poço em que se aprofundou de muito em muito, no fundo do breu, deixando-se cair na dúvida, fosse levando restos de parede, roçando em dedos, complicando-se em partículas minúsculas para não mais se deixar compreender.

Nesses extremos, que definem os exercícios da palavra para referir-se às coisas, Jorge Menna Barreto infiltra-se para acionar uma espécie de antinomia da palavra – contraditoriamente, do individual para o universal, da singularidade própria de um que quer avançar para o todo e qualquer um que se encaixe, forçadamente, em uma dada categoria. O artista provoca o núcleo duro das palavras, recolhe, refaz, indistinguindo seus radicais.

Na Galeria Carbono, os trabalhos selecionados do acervo para habitar um conjunto não apaziguado convivem com suas Desleituras, título de um projeto de Jorge já vivenciado no 32º Panorama da Arte Brasileira (2011) no MAM-SP. Na ocasião, o artista desenvolveu palavras a partir da hibridização, mescla e sobreposição de termos e conceitos com o intuito de potencializar discursos e processos de percepção com o público acerca dos trabalhos da mostra em questão.

As desleituras são impressas em tapetes de borracha e se configuraram como dipositivos poético-educativos, como disparadores de conversas em visita a uma dada exposição. Sugerem uma subversão dos processos de mediação artística que, por vezes, pretendem “explicar” a obra, oferecer um discurso fechado ou assertivo. Segundo o artista, as desleituras flertam com os procedimentos presentes em textos críticos e estão em um território ambíguo: em pleno fluxo entre obra, exercício crítico e dispositivos de mediação.

A palavra é procedimento do artista para deslocar e expandir a pretensa pureza original dos trabalhos, o dito ponto crucial em que o pensamento pode construir reflexões sempre díspares acerca de cada poética aqui presente. Assim, propõe validades perceptivas e moventes e não verdades irreversíveis. As “desleituras”, processos erguidos a partir das poéticas de outros artistas, o que é muito diferente de sobre, realizam-se na dimensão do provável, do circundante e, ao mesmo tempo, através desses trabalhos.

Talvez convenha não arriscar a origem das palavras ao rés do chão. Ou melhor, arrisque-se. E nade em aparências. Elas vão nos trair. Caminhe com os pés esmagando as palavras, exaurindo-as em seiva. Avance, rasgando, esfaqueando a teia, que é o texto, tessitura da aranha, que se desfaz para construir sua casa-armadilha. Percorra, meio sem jeito, o outro lado desses casulos. Finque suas bandeiras de certeza. Sufoque-se nesse lugar movediço. São palavras – arcos com flechas direcionados para nós mesmos.

Galciani Neves
Curadora

 

Artistas participantes: 
Artur Lescher 
Célia Euvaldo 
Carlos Fajardo 
Daniel Steegmann 
Felipe Cohen 
Gustavo Speridião 
Jenny Holzer 
Jorge Menna Barreto 
Josef Albers 
Juan Fontanive 
Julio Le Parc 
Laura Lima 
Lenora de Barros 
Luiza Baldan 
Marcius Galan 
Nelson Leirner
Paulo Bruscky 
Rachel Whiteread 
Regina Silveira
Sérvulo Esmeraldo 
Tatiana Blass