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Edições contemporâneas

Lançamento Solo: Rodolpho Parigi e Fancy Violence

Plastic Destruction!

 

Dane-se a aura da obra de arte, Fancy Violence doesn`t care about uniqueness or perenity... It is all about now! Seu passado duvidoso, repleto de sombras e pistas enganadoras, é obra da imaginação coletiva, seja de artistas, curadores ou curiosos – um tableaux vivant de situações tão gráficas quanto fantásticas, uma coleção de souvenirs que foram emprestados a esta criatura de plástico e nanquim, lingerie e lâminas. Alguns dizem ter sido vista em Bruxelas, em fins do século XIX, comprando bombons de um famoso chocolatier no Grand Sablon; outros argumentam tratar-se de um ser imortal, tão remoto quanto o homem de Cro-Magnon.

 

Fancy Violence é uma anti-heroína, incansável em sua missão iconoclasta, destruidora de mitos, de farsantes colecionadores e suas obras-primas, as quais rasga sem qualquer piedade usando a ponta do cetro afiado, um instrumento que serve tanto para ceifar vidas quanto glórias, indistintamente – reza a lenda, certa noite teria invadido o Guggenheim, criando Fontanas onde antes havia Damien Hirsts.)

 

Avançado o século XX, Fancy Violence construiu um novo corpo capaz de arruinar expectativas e gerar especulações sobre a natureza do homem que lhe teria dado origem. Aterrissou no Copan de helicóptero e de lá seguiu surda pela noite suja, amealhando cafajestes e fazendo filhos com irmãos gêmeos que aguardavam em fila, inquietos no Largo do Arouche. Pincel atômico em mãos, ela sobe em perigosos high heels e toma de assalto a cena artística da metrópole arrivista. Mulher castradora e homem ameaçador, simultaneamente – ambos prestes a trair seu Criador –, ela busca holofotes com o mesmo empenho com que apaga vestígios da fama previamente conquistada por Rodolpho Parigi.

 

Plastic destruction!

 

Para muito além do dar ou ganhar forma, e de todos os expedientes plásticos comprometidos com uma ontologia do ser e da arte, Fancy Violence implode o artista para forjar um ente cuja sobrevida pode tanto durar séculos ou instantes. Ela aniquila a pintura, a geometria e a obra anterior de Parigi para garantir novo fôlego a esse ser que se alimenta de resíduos pictóricos, fragmentos de história e arroubos sexuais; ao explodir a tela, deu vida aos monstros anteriormente plasmados no óleo pelo pintor. Seu aparato bélico não conta com granadas, mas dispõe de batatas cravejadas de giletes, as quais lança sobre a cidade excitada em sua intermitente febre de consumo e prazer imediato. A voz gutural, o dialeto desconhecido até mesmo pelo Papa e os apetrechos góticos são sua armadura contra as expectativas coletivas e a inveja alheia.

 

Entretanto, sua vaidade sem limites trai até mesmo os mais veementes propósitos revolucionários. E é justamente aí que reside sua força, niilismo romântico de quem nada tem a perder. Se não está à altura de Deus, em posição de igual enfrentamento, resta então desafiá-lo, cobiçar seu posto e, em fração de segundos, lançar sombra sobre a humanidade, sangue sobre a escória do mundo e colorir de pink as calçadas da fama – sua fama pode ser curta, mas sua vida é eterna, e seu rastro de destruição ainda mais deletério que a mais letal das armas nucleares. Assim, a pintura de Rodolpho Parigi explode em performances, grafites, nanquins e neons... Kafka faz às vezes de guru nos delírios transformistas do artista, cuja repercussão vai muito além dos abastados arranha-céus paulistanos e dos cubos burocráticos das galerias de arte.

 

Tomando a metamorfose como religião, processo de trabalho e ambição última, Parigi apresenta nesta exposição a imagem de um corpo híbrido, ambíguo, de anatomia desconhecida, uma evolução orgânica das formas que o artista vinha exercitando já algum tempo através da tridimensionalidade latente em suas grandes telas, assim operando uma fusão entre o humano e inumamo.  

 

Já Fancy Violence, insidioso alterego do artista, exibe nesta exposição sua cortante assinatura em neon magenta, a mesma cor do sangue que corre veloz nas veias da anti-heroína.

 

Bernardo José de Souza