Carbono Galeria

Edições contemporâneas

O importante, minha filha, é nunca tirar a mão do barro

O importante, minha filha, é nunca tirar a mão do barro

São Paulo, 20.05 ~ 29.07.2017

 

O Recôncavo Baiano é daqueles lugares fartos de história e mistério. 
Localizado às margens do Rio Paraguaçu, é onde nasceu Caetano Veloso 
e Maria Bethânia.
Terra poderosa, que um dia pertenceu aos Tupinambás, conta hoje com 80,4% 
de população negra, afrodescendentes, fato que se percebe ao caminhar pelas ruas. As cores vibrantes, os terreiros, as rodas de samba, as brincadeiras de criança. 
Foi berço do samba no ano de 1860, sua agricultura é a cana de açúcar, a mandioca 
e o fumo. Sim, terra fértil e úmida.
Nosso Brasil brasileiro, africano, índio. Os europeus vieram para instalar suas fábricas de charutos. Mão de obra negra. Nosso Brasil brasileiro. Sincretismo explícito.
Foi nessa aventura cultural que conheci Dona Cadú, em uma pequena vila de pescadores no distrito de Coqueiros.
Ricardina Pereira da Silva tem 97 anos e é a maior ceramista em atividade no Brasil. Sambadeira, é daquelas personalidades que transcendem nossa existência: carismática, risonha e de notória ligação com sua ancestralidade de matriz africana, além de sacerdotisa dotada de uma sabedoria de outra ordem.
Conhecer Dona Cadú foi uma experiência sem descrição, sem precedentes, inesquecível, avassaladora, causadora de enorme comoção. 
Sem uso de nenhuma tecnologia, ajoelhada em seu casebre, a artista produz utensílios de cerâmica há mais de oitenta anos. 
Foi em sua casa que ouvi a frase que intitula essa exposição.
Por conta de uma situação, que não caberia citar nesse texto, lhe perguntei com 
os olhos cheios d’água: “Como é que a senhora aguenta, Dona Cadú?”.
Ela sorriu, me olhou firme, fez uma pausa e me disse: “O importante, minha filha, 
é nunca tirar a mão do barro”.
Esse dizer me causou enorme impacto. Tudo estava ali. A metáfora para o fazer artístico, a origem do mundo, o trabalho, a fé. A crença no ofício e o contato com 
a matéria. 
Quando convidada a desenvolver o projeto para essa exposição na Carbono, 
ao refletir sobre a noção de edição (foco do trabalho desenvolvido pela galeria), repetição e reprodutibilidade técnica, saltou em minha memória a imagem das cerâmicas empilhadas de Dona Cadú. 
Convidei, então, nove artistas para desenvolverem um múltiplo que partisse 
não de um tema, mas dessa proposição poética.
Desconstruindo a questão da reprodutibilidade técnica discutida por Walter Benjamin, a proposta era o desenvolvimento de edições que combinasse esse duplo desafio: reproduzir, multiplicar, sem, no entanto, tirar a mão do barro. 
Ou, parafraseando Manoel de Barros: “Repetir, repetir-até ficar diferente”.

Maria Montero

 

Artistas participantes:

Antônio Obá
Cristiano Lenhardt
Dalton Paula
Daniel Lie
Daniel Murgel
Fagus
Lais Myrrha
Rodrigo Bueno
Romain Dumesnil

 

Veja aqui as obras presentes na exposição.