Carbono Galeria

Edições contemporâneas

Toscana: caminhos e contrastes

Conhecer os recentes trabalhos de Betina Samaia e Claudio Edinger é percorrer os caminhos de suas investigações, e ouvir o delicado diálogo que sussurram as obras selecionadas para este projeto da Carbono Galeria.

Os fotógrafos decidiram em 2018 se aventurar pelos campos e vilarejos da Toscana. Lugar de paisagens imemoriais e luz intensa, foi nessa região no norte da Itália que surgiu um importante expediente para produzir na arte a ilusão de realidade: a perspectiva.

É o ponto de vista que cria o objeto e Claudio Edinger tem explorado em suas obras o recurso conhecido como foco seletivo, que permite reunir no mesmo quadro, a abrangência da paisagem – que na generosa ampliação quase encapsula também o espectador – com a riqueza para detalhes de elementos, ou áreas selecionadas. É o caso de Pienza Capela (2018) fotografia que enquadra, difusamente, quilómetros de planícies e pequenos montes característicos da paisagem toscana, com a singela Cappella Madonna della Vitaleta, que desponta, iluminada e em foco, no eixo viário central. A série oferece uma complexa interação entre olhares. O ponto de vista do fotógrafo ecoa no espectador atento, que passa a ter uma visão duplamente privilegiada: encontra-se em pleno voo ainda que estático, em frente a imagem. Nessa singular convergência tempo-espacial o trabalho de Edinger possibilita espreitar os acionamentos das misteriosas engrenagens de seu mundo, de nosso mundo.

Mas na investida ao tema, não é só a perspectiva que conta como fator relevante. Os recursos do equipamento fotográfico também contribuem para uma sofisticada investigação imagética. O olhar de Betina Samaia não se interessa por aquilo que se pode facilmente perceber, seu olhar busca o recôndito. Nesta série toscana utilizou uma câmera cujos parâmetros, especialmente transformados, possibilitam a captura de um espectro de luz inalcançável a nossos olhos. Se o olho humano encontra limites, os caminhos de pesquisa da diligente fotógrafa os supera. A refração da luz infravermelha nos objetos é capturada nas imagens, propondo assim uma nova relação entre cores e tons. Em Toscana 01 (2019) a pequenina e antiga Capella Madonna della Vitaleta é vista agora ao longe, no alto da colina, ladeada por altos ciprestes. No entanto tais elementos vernaculares da paisagem italiana se articulam e contrastam com a qualidade onírica de um novo mundo sensível, que reconhecemos com uma distante e renovada familiaridade.

O tranquilo silêncio oferecido pelo universo poético-imagético de Betina Samaia é complementar ao ruído silenciado pela distância aérea na perspectiva definida por Claudio Edinger. O substrato invisível faz-se presente por seu apuro técnico-poético, que encontra em seu parceiro, de modo correspondente, uma intenção de permanência e amplitude, que estimula o olhar do espectador. A justaposição entre as obras também evidencia os jogos entre as latências e manifestações que operam entre o universo visível e invisível; e as distâncias e aproximações que ora projetam o real, ora vislumbram o onírico.

Mas se a fotografia por excelência pretende fixar aquilo que nos escapa à vista, esta exposição nos provoca naquilo que só nós poderemos ver: triangula nossa relação com as imagens em uma paralaxe inspiradora, onde se ativam múltiplas narrativas imaginárias.

 

Melina Valente

 

 

 

Confira aqui as obras presentes na exposição.